terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

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KARL MARX: "GRITANDO MALDIÇÕES COLOSSAIS"
Paul Johnson; 1988



Karl Marx tem tido mais influência nos acontecimentos atuais, e nas cabeças de homens e mulheres, do que qualquer intelectual de nossos tempos.
A razão para isso não é originariamente a atração que se sente diante de seus conceitos e de sua metodologia, embora ambos representem um atrativo para as cabeças pouco rigorosas, mas o fato de
que sua filosofia foi institucionalizada em dois dos maiores países do mundo, União Soviética e China, e em seus muitos satélites.
Nesse sentido, ele se assemelha a Santo Agostinho, cujas obras foram lidas de forma generalizada entre os líderes da igreja do século V ao XIII e por esse motivo tiveram um papel preponderante na configuração da cristandade medieval.
Mas a influência de Marx tem sido ainda mais direta, pois o tipo de ditadura que ele idealizou para si mesmo (como veremos) foi de fato levada a efeito, com incalculáveis conseqüências para a humanidade, por seus três mais importantes seguidores, Lenin, Stalin e Mao Tse-Tung, que nesse ponto foram, todos eles, marxistas convictos.

Marx foi um filho de seu tempo, o meio do século XIX, e o marxismo foi uma filosofia típica do século XIX pelo fato de se pretender científico.
"Científico" era o termo mais convincente de aprovação para Marx, que ele usava comumente para distinguir a si próprio de seus vários inimigos.
Ele e sua obra eram "científicos"; seus inimigos, não.
Percebeu que tinha encontrado uma explicação científica do comportamento do homem na história análoga à teoria da evolução de Darwin.
A noção de que o marxismo é uma ciência, de um modo que nenhuma outra filosofia nunca foi ou podia ser, faz parte da doutrina pública dos governos instituídos por seus seguidores, de tal forma que influencia o ensino de todas as matérias nas escolas e universidades desses países.
Isso se espalhou pelo mundo não-marxista, pois os intelectuais, principalmente os acadêmicos, são fascinados pelo poder, e a identificação do marxismo com a autoridade física poderosa induziu muitos professores a acolher a "ciência" marxista em suas próprias disciplinas, especialmente nas matérias não-exatas ou quase exatas como Economia, Sociologia, História e Geografia.
Sem dúvida, se Hitler, em vez de Stalin tivesse ganho a disputa pela Europa Central e Oriental em 1941-45, e desse modo impusesse sua vontade sobre uma grande parte do mundo, a doutrina nazista - cujos partidários também pretendiam que fosse científica, assim como a teoria sobre a raça que dela fazia parte - teria ganho um falso brilho acadêmico e teria penetrado nas universidades pelo mundo afora.
Porém, a vitória militar assegurou que a ciência marxista, mais do que a nazista, prevalecesse.

Por conseguinte, o que devemos perguntar em primeiro lugar a respeito de Marx é: em que sentido ele era um cientista, se é que o era?
Ou seja, até que ponto ele estava comprometido com a busca do conhecimento objetivo por meio da investigação e da avaliação dos dados?

A esse respeito, a biografia de Marx o mostra originariamente como um erudito.
Ele descendia, por parte de pai e de mãe, de linhagens de scholars. Seu pai, Heinrich Marx, um advogado cujo nome original era Hirschel ha-Levi Marx, era o filho de um rabino estudioso do Talmude, descendente do famoso Rabino Elieser ha-Levi de Mainz, cujo filho Jehuda Minz era diretor da Escola Talmúdica de Pádua.
A mãe de Marx, Henrietta Pressborck, era filha de um rabino que descendia igualmente de eruditos e sábios famosos.
Marx nasceu em Trier (na época, um território prussiano) a 5 de maio de 1818, sendo um entre nove filhos, embora tenha sido o único filho homem a sobreviver até a idade adulta; suas irmãs casaram-se, respectivamente, com um engenheiro, um livreiro e um advogado.
A família era essencialmente de classe média e prosperava a olhos vistos.
O pai era um liberal e foi descrito como sendo "um verdadeiro francês do século XIX, que sabia seu Voltaire e seu Rousseau de trás para a frente"
Seguindo um decreto prussiano de 1816 que proibia os judeus de ocupar os cargos mais elevados na advocacia e na medicina, tornou-se protestante e a 26 de agosto de 1824, batizou seus seis filhos.
Marx foi crismado aos 15 anos e parece ter sido, por algum tempo, um cristão fervoroso.
Cursou o antigo segundo grau jesuíta - nessa época secularizado - e a Universidade Bonn. De lá, foi para a Universidade de Berlim, que era, nessa época, a de melhor ensino no mundo.
Nunca recebeu nenhuma educação judaica nem se esforçou para ter tal educação, e nunca demonstrou nenhum interesse pelas causas dos judeus.


Porém pode-se dizer que ele desenvolveu peculiaridades típicas de um certo tipo de erudito, os talmúdicos (trabalhos intelectuais compostos de várias partes distintas; explicações de textos jurídicos do Pentateuco):
a tendência de acumular massas imensas de dados (manuscritos) assimilados pela metade e de planejar obras enciclopédicas que nunca eram terminadas;
um enorme desprezo por todos os não-eruditos e uma agressividade e irascibilidade extremadas ao lidar com outros eruditos.

Na verdade, praticamente toda a sua obra tem a característica básica de um estudo talmúdico: é essencialmente um comentário a respeito ou uma crítica do trabalho de outros estudiosos do mesmo campo.

Marx se tornou um bom scholar clássico e mais tarde se especializou em filosofia, principalmente a partir do modelo hegeliano. Fez doutorado, embora tenha sido na Universidade de Jena, que tinha critérios menos rígidos do que a de Berlim; parece nunca ter merecido um posto acadêmico.
....

Havia três elementos constitutivos em Marx: o poeta, o jornalista e o moralista.
Cada um deles tinha sua importância. Juntos, e combinados com sua enorme vontade, tornavam-no um escritor e um profeta formidável.
Mas não havia nada de científico nele; na verdade, em todos esses aspectos ele era anticientífico.

O poeta.
O poeta em Marx era muito mais importante do que geralmente se supõe, muito embora suas metáforas poéticas logo tenham sido incorporadas a sua visão política.
Começou a escrever poesia quando ainda era um garoto, em tomo de dois temas principais:
- seu amor pela garota da porta ao lado Jenny von Westphalen, de descendência prussiano-escocesa, com quem se casou em 1841;
- a destruição do mundo.

Escreveu uma grande quantidade de poesia, três volumes manuscritos que foram enviados a Jenny, herdados pela filha deles, Laur, e desapareceram após sua morte (suicídio) em 1911.
Porém, as cópias de 40 poemas se conservaram, inclusive uma tragédia em verso, Oulanen, que Marx tinha esperanças de que viesse a ser o Fausto de sua época.
Dois poemas tinham sido publicados na Athenaeum de Berlim, a 23 de janeiro de 1841.
Intitulavam-se "Canções selvagens", e a selvageria é uma marca característica de seus versos, juntamente com um intenso pessimismo no que diz respeito à condição humana, ódio, uma fascinação pela decomposição e pela violência, pactos de suicídio e pactos com o demônio.
"Nós estamos acorrentados, alquebrados, vazios, amedrontados / Eternamente acorrentados a esse bloco marmóreo do ser", escreveu o jovem Marx, “. . .
Somos os imitadores de um Deus insensível”.

Ele próprio, representando Deus diz: "Gritarei maldições colossais à humanidade", e sob a superfície de grande parte de seus poemas está a idéia de uma crise mundial generalizada que aumenta.

Gostava de citar o verso de Mefistófeles, do Fausto de Goethe:
"Tudo o que existe merece perecer";
utilizou-o, por exemplo, em seu pequeno tratado contra Napoleão III, O 18 brumário, e ele manteve por toda a sua vida essa visão apocalíptica de uma catástrofe imensa e pronta para se abater sobre o sistema vigente: estava na poesia, foi o pano de fundo do Manifesto comunista de 1848 e foi o clímax do próprio O Capital.

Marx, em suma, é um escritor escatológico do começo ao fim.
É digno de nota, por exemplo, que no projeto original de A ideologia alemã (1845-46) ele tenha incluído uma passagem que lembra bastante seus poemas a respeito do "Dia do Juízo":
"Quando os reflexos das cidades em chamas forem vistos nos céus (. . .) e quando as 'harmonias celestiais' consistirem das melodias da Marseillaise e da Carmagnole, tendo como acompanhamento canhões ribombantes, enquanto a guilhotina marca o tempo e as massas inflamadas gritam Ça ira, ça ira, e a autoconsciência está pendurada no poste de luz".

Mais uma vez, há ecos de Oulanen no Manifesto comunista, quando o proletariado leva o manto do herói.
O tom apocalíptico dos poemas irrompe em seu terrível discurso de 14 de abril de 1856:
"Ai história é o juiz, seu carrasco, o proletariado" - o terror, casas marcadas com a cruz vermelha, metáforas de catástrofe, terremotos, lava fervente saindo da crosta terrestre que se quebra. . .

O que importa é que a idéia de Marx de um "dia do juízo", tanto em sua lúgubre versão poética quanto, por fim, em sua versão econômica, representa uma visão artística, e não científica.
Essa idéia sempre esteve na cabeça de Marx e, como um economista político, ele trabalhou a partir dela mas voltado para trás, procurando a prova que a tornava convincente, mais do que voltado para a frente, partindo de dados examinados objetivamente.

E é claro que é o elemento poético que empresta à projeção histórica de Marx seu efeito dramático e de fascinação sobre os leitores radicais, que querem acreditar que a morte e o julgamento do capitalismo se aproximam.
O talento poético se manifesta de forma intermitente nas páginas de Marx, criando algumas passagens memoráveis.
No sentido de que ele intuía mais do que deduzia ou calculava, Marx até o fim continuou sendo um poeta.

Marx jornalista
Porém, ele também foi um jornalista e, em alguns aspectos, dos bons, Marx achava não apenas difícil mas impossível planejar um livro grande quanto mais escrevê-lo: mesmo O capital se constitui de uma série de ensaios aglutinados sem nenhuma ordem real.
Porém, ele se sentia bem escrevendo textos curtos, penetrantes, reações opinativas no momento em que os acontecimentos se davam.
Acreditava, em concordância com sua imaginação poética, que a sociedade estava à beira do colapso.
Assim, quase toda notícia importante podia ser relacionada a esse princípio geral, o que dava a seus textos jornalísticos uma densidade extraordinária.

Em agosto de 1851, um seguidor do socialista primitivo Robert Owen, Charles Anderson Dana, que se tomara um importante dirigente do New York Daily Tribune, pediu a Marx que se tomasse o correspondente político do jornal na Europa, escrevendo dois artigos por semana a uma libra cada.
Pelos próximos dez anos, Marx contribuiria com quase 500 artigos, dos quais cerca de 125 foram escritos para ele por Engels. Esses artigos eram fartamente alterados e reescritos em Nova York, mas a argumentação vigorosa é típica de Marx.
Utilizava epigramas (mordaz, sátira) e aforismos (máximas, pensamentos morais) de forma brilhante, embora muitos não tivessem sido inventados por ele.
Marat criou as frases: "Os trabalhadores não possuem uma pátria" e "Os proletários não têm nada a perder a não ser suas correntes”, e é nesse particular que reside a força deles. Na verdade, seu maio".

A famosa piada da burguesia usando brasões feudais em seus traseiros se deve a Reine, assim como ”A religião é o ópio do povo", Louis Blanc inventou: "De cada um, segundo sua capacidade, para cada um, segundo sua necessidade".
De Karl Schapper, tirou: "Trabalhadores de todo o mundo, uni-vos!", e de Blanqui: "a ditadura do proletariado".
Mas Marx tinha capacidade para criar suas próprias frases: "Em política, os
alemães pensaram o que outras nações realizaram".
"A religião é apenas o sol ilusório em tomo do qual o homem gira, até que ele comece a girar em tomo de si mesmo."
"O casamento burguês é a comunidade das esposas."
"O arrojo revolucionário que permite proclamar a seus adversários as desafiadoras palavras: 'Não sou nada e tenho de ser tudo'".
"As idéias dominantes de cada época foram as idéias da classe dominante nessa época".

Além disso, ele tinha o raro talento de chamar a atenção para os ditos de outras pessoas e utilizá-los exatamente no momento certo do raciocínio, numa combinação que causava grande impacto.
Nenhum escritor político jamais superou as três últimas frases do Manifesto:
"Os trabalhadores não têm nada a perder a não ser suas correntes.
Eles têm um mundo a conquistar.
Trabalhadores de todo o mundo, uni-vos!".

Foi olho jornalístico de Marx para o texto lacônico, para a frase incisiva que, mais do que qualquer outra coisa, salvou do esquecimento toda a sua filosofia no último quarto do século XIX.


Marx, um acadêmico frustrado.
Porém, se a poesia era responsável pelas imagens e o aforismo jornalístico pelos pontos altos da obra de Marx, sua base era o jargão acadêmico.
Marx era um acadêmico; ou antes, e pior, era um acadêmico fracassado.
Um pretendente a professor universitário frustrado, ele desejava surpreender o mundo ao criar uma nova escola filosófica, que representava também um plano de ação destinado a lhe conferir poder.

Daí sua atitude ambivalente em relação a Hegel.
Marx diz em seu prefácio à segunda edição alemã de O capital: "Declarei-me, francamente, um discípulo do grande pensador" e "me diverti com o uso da terminologia hegeliana quando discuti a teoria do valor" em O capital.
Porém, diz ele que seu "método dialético" está em "oposição direta" ao de Hegel.
Para Hegel, o processo de pensamento é o que cria o real, ao passo que "em minha visão, por outro lado, o ideal não passa do material quando transposto e trasladado para o interior da mente do homem".
Conseqüentemente, afirma ele, "nos escritos de Hegel, a dialética está de cabeça para baixo.
Devemos colocá-la outra vez corretamente virada para cima se queremos descobrir o núcleo racional que ficou oculto sob o invólucro da mistificação".

Marx, portanto, perseguiu a fama acadêmica a partir de sua (suposta) sensacional descoberta da falha fundamental no método de pensamento de Hegel, a qual permitiu-o substituir todo o sistema hegeliano por uma nova filosofia, na verdade, uma superfilosofia, que tomaria obsoletas todas as filosofias existentes.
Mas ele continuou a admitir que a dialética de Hegel era "a chave para a compreensão humana", e ele não apenas se utilizou dela mas se manteve preso a ela até o fim da vida.
Isso porque a dialética e suas "contradições" explicavam a crise universal aguda que tinha sido sua visão poética original quando era um adolescente.

Como escreveu até o fim da vida (14 de janeiro de 1883), os ciclos comerciais representam "as contradições inerentes à sociedade capitalista" e darão lugar ao "ponto culminante desses ciclos, uma crise universal".
Isso vai "incutir a dialética" nas cabeças até mesmo dos "novos ricos do novo império alemão".

O que tudo isso tem a ver com a política e a economia do mundo real?
Absolutamente nada.

Do mesmo modo que a origem da filosofia marxista se assenta numa visão poética, a elaboração dessa filosofia foi um exercício de retórica acadêmica.


O moralista.

Entretanto, o de que Marx necessitava para pôr em movimento sua maquinaria intelectual era de um estímulo moral.
Ele o encontrou em seu ódio à usura e aos agiotas, um sentimento violento relacionado diretamente com suas próprias dificuldades financeiras.

Esse sentimento ganhou corpo nos primeiros escritos importantes de Marx, dois ensaios "Sobre as questões judaicas", publicados em 1844 no DeutschFranzosische Jahrbücher.

Os discípulos de Marx eram todos - em graus variáveis - anti-semitas, e em 1843 Bruno Bauer, o líder anti-semita da esquerda hegeliana, publicou um ensaio pedindo que os judeus abandonassem completamente o judaísmo.
Os ensaios de Marx eram uma resposta a isso.
Ele não era contra o antisemitismo de Bauer; na verdade, partilhou desse sentimento, apoiou-o e citou-o em aprovação.
Entretanto, desaprovou a solução de Bauer.
Marx era contra a opinião de Bauer de que a natureza anti-social dos judeus tinha uma origem religiosa e podia ser corrigida fazendo-os se afastarem de sua fé.
Na opinião de Marx, a origem do mal era social e econômica.

Escreveu: "Examinemos o judeu real.
Não o judeu de sábado. . . mas o judeu de todo dia".
Qual era, perguntou ele, "a base profana do judaísmo?
Necessidade pessoal, interesse próprio.
Qual é o culto secular dos judeus?
O comércio.
Qual é o seu deus profano?
O dinheiro".

Os judeus haviam espalhado gradualmente sua religião "prática" por toda a sociedade:
“o dinheiro é o deus egoísta de Israel, ao lado do qual nenhum outro deus pode existir.
O dinheiro rebaixa todos os deuses da humanidade e os transforma em mercadoria.
O dinheiro é o valor auto-suficiente de todas as coisas.
Por essa razão, ele destituiu o mundo inteiro, tanto a raça humana quanto a Natureza, de seu valor próprio.
O dinheiro é a essência alienada do trabalho e da existência do homem: essa essência domina o homem, que venera o dinheiro.
O deus dos judeus foi secularizado e tomou-se o deus do mundo”

Os judeus tinham corrompido os cristãos e os convencido de que "eles não tinham outro destino aqui embaixo a não ser tomarem-se mais ricos do que seus semelhantes" e de que "o mundo é uma bolsa de valores".
O poder político tinha se tomado o "fiador" do poder monetário.
Conseqüentemente, a solução era econômica.
O "agiota" tinha passado a ser "o elemento anti-social do momento presente" e para "tomar a usura impossível" era necessário acabar com as "precondições", ou seja, a "possibilidade real" do tipo de atividade financeira que dava lugar a esse agiota.

Era só acabar com a atitude judaica em relação ao dinheiro e com os judeus e sua religião, que a versão corrompida do cristianismo que eles tinham imposto ao mundo desapareceria:
"Libertando-a do baixo comércio e do dinheiro e, desse modo, do judaísmo real e prático, nossa época estaria, ela própria, livre."

Assim, a visão de Marx acerca do que estava errado com o mundo combinava um anti-semitismo de bar estudantil com Rousseau.
Ele ampliou essa visão em sua filosofia madura pelos três anos subseqüentes, de 1844 a 1846, durante os quais chegou à conclusão de que o elemento prejudicial na sociedade, os agentes do poder financeiro usurário contra os quais ele se revoltava, não eram apenas os judeus mas a classe burguesa como um todo.

Do outro lado estava a nova força redentora, o proletariado.
Essa argumentação é expressa em termos estritamente hegelianos, tendo Marx utilizado todos os poderosos recursos do jargão filosófico alemão no pior estilo acadêmico, embora o impulso básico seja claramente moral e a visão final (a crise apocalíptica) ainda seja poética.


Desse modo: a revolução se aproxima, a qual na Alemanha será filosófica:
"Uma esfera que não pode se considerar livre se não se libertar de todas as outras esferas, o que, resumindo, representa o total desaparecimento de uma humanidade capaz de se redimir somente por meio de uma redenção total da humanidade. Essa dissolução da sociedade, representada em uma classe particular, é o proletariado".

O que Marx parece estar dizendo é que o proletariado, a classe que não é uma classe, a destruidora de uma ou várias classes, é uma força redentora que não possui história, não está sujeita às leis históricas e, em última análise, põe um fim na história - que é, por si só, de forma bem curiosa, um conceito bastante judaico, o proletariado aparecendo como Messias ou redentor.

A revolução consiste de dois elementos:
"a cabeça da libertação é a filosofia, seu coração é o proletariado".
Desse modo, os intelectuais formariam a elite - os generais - e os trabalhadores seriam os soldados de infantaria.
Tendo definido a riqueza como sendo o poder monetário judaico estendido à classe burguesa como um todo, e tendo definido proletariado segundo um novo sentido filosófico, Marx se dirigiu então, utilizando-se da dialética hegeliana, ao coração de sua filosofia, ou seja, aos acontecimentos que conduziriam à grande crise.

O trecho fundamental sobre esse assunto termina assim:
O proletariado confirma a sentença segundo a qual a propriedade privada se estabelece pelo fato de originar o proletariado, do mesmo modo que confirma a sentença segundo a qual os trabalhadores assalariados se estabelecem pelo fato de possibilitarem o enriquecimento de outros e a miséria deles próprios.
Se o proletariado for vitorioso, isso não significa que ele se tomará a facção absoluta da sociedade, pois será vitorioso tão-somente por extinguir a si próprio e a seu adversário.
Então, o proletariado e seu adversário definido, a propriedade privada, desaparecem.
Marx, desse modo, conseguiu definir o acontecimento catastrófico que ele tinha visto, primeiramente, como uma imagem poética.
Porém, a definição se dá nos termos acadêmicos alemães.
O que de fato nada significa no tocante ao mundo real fora do salão de conferências da universidade.


Mesmo quando Marx tenta politizar os acontecimentos, ainda assim se utiliza do jargão filosófico:
"O socialismo não pode vir a existir sem uma revolução.
Quando a força ordenadora começar a atuar, quando a essência, a coisa-em-si aparecer, então o socialismo poderá se desfazer de todos os disfarces políticos".

Marx era um vitoriano legítimo; tanto quanto a própria rainha Vitória em suas cartas, tinha o hábito de sublinhar palavras.
Mas, no seu caso, essa hábito realmente não ajudava muito no sentido de transmitir sua mensagem, que ficava encoberta pela obscuridade dos conceitos da filosofia acadêmica alemã.
Para fazer sentir a força de seus pontos de vista, Marx também lançou mão de uma grandiloqüência habitual, enfatizando a natureza universal do processo que estava descrevendo, porém isso também ficou obstruído pela retórica.

Desse modo:
"o proletariado só pode existir no âmbito de uma história mundial, do mesmo modo que o comunismo; suas ações só podem ter uma existência inserida numa história mundial".

Ou ainda:
"O comunismo só é possível na prática enquanto ação imediata e simultânea do povo dominante, o que pressupõe o desenvolvimento universal do poder produtivo e do comércio mundial que depende desse poder".

Entretanto, mesmo quando a mensagem de Marx é clara, suas afirmações não têm, necessariamente, qualquer validade; não passam do obiter dicta (não discussão do assunto principal) de um filósofo moralista.

Algumas das frases que citei acima soariam igualmente plausíveis ou implausíveis se fossem alteradas para ganharem o sentido contrário.
Portanto, onde estão os fatos, as provas do mundo real, que transformariam esses ditos proféticos de um filósofo moralista, essas revelações, numa ciência?
Marx tinha uma atitude ambivalente em relação às informações, assim como em relação à filosofia de Hegel.
Por um lado, passou décadas inteiras de sua vida reunindo dados, que se acumularam em mais de 100 imensos cadernos de anotações.
Porém, esses dados eram do que se encontram em bibliotecas, registrados em livros azuis (Livros azuis são publicações oficiais do parlamento inglês).
O tipo de informação que não interessava a Marx era aquele a ser obtido a partir do exame, com seus pr6prios olhos e ouvidos, do mundo e das pessoas que nele vivem.
Ele era, total e incorrigivelmente, restrito a sua escrivaninha.
Nada no mundo o tirava da biblioteca e do estudo.
Seu interesse pela pobreza e pela exploração data do outono de 1842, quando tinha 24 anos e escreveu uma série de artigos sobre as leis que regulavam o direito dos camponeses locais de estocar madeira.
Segundo Engels, Marx contou-lhe que "foi seu estudo sobre a lei concernente ao roubo de madeira e sua investigação sobre os camponeses de Mosela que o fizeram desviar sua atenção das condições meramente políticas para a situação econômica, e por conseguinte para o socialismo".

Mas não há nenhuma prova de que Marx tenha de fato conversado com os camponeses e proprietários ou tenha analisado a situação in loco.

Mais uma vez, em 1844, escreveu para o semanário Vorwarts (O radical) um artigo sobre a situação dos tecelãos silesianos.
Porém, nunca foi à Silésia ou, até onde se sabe, jamais falou com nenhum tipo de tecelão, e se o tivesse feito estaria contrariando seu próprio temperamento.
Marx escreveu sobre finanças e indústria durante toda a vida mas só conheceu duas pessoas ligadas aos sistemas financeiro e industrial.
Um era seu tio na Holanda, Lion Philips, um bem-sucedido homem de negócios que fundou a firma que se transformaria na imensa Philips Electric Company.
As opiniões do tio Philips sobre o sistema capitalista em geral deviam ser bem embasadas e interessantes, mas Marx não se preocupou em explorá-las. Só o consultou uma vez, acerca de um assunto ligado a altas finanças, e embora tenha visitado Philips quatro vezes, nessas ocasiões eles trataram tão-somente de assuntos pessoais relacionados com o dinheiro da família.
O outro entendido era o próprio Engels.
Mas Marx recusou um convite de Engels para acompanhá-lo na visita a uma fiação, e até onde sabemos, Marx nunca esteve, durante toda a sua vida, numa manufatura, numa fábrica, numa mina ou em qualquer outro local de trabalhe industrial.

O que é ainda mais surpreendente é a hostilidade de Marx em relação aos companheiros revolucionários que tinham essa experiência - ou seja, os trabalhadores que haviam se conscientizado politicamente.
Ele encontrou tais pessoas pela primeira vez em 1845, quando fez uma breve visita a Londres e foi a um encontro da Sociedade de Educação dos Trabalhadores Alemães.
Não gostou do que viu.
Aqueles homens eram, em sua maioria, trabalhadores especializados, relojoeiros, impressores e sapateiros; o líder deles era um guarda florestal.
Eram autodidatas, disciplinados, cerimoniosos, bem-educados, totalmente contrários à boemia, ansiosos para transformar a sociedade mas moderados no tocante aos meios práticos para alcançar esse objetivo.
Não partilhavam das visões apocalípticas de Marx e, sobretudo, não usavam sua linguagem acadêmica.
Ele os via com desprezo: para ele, não passavam de carne para canhão.
Marx sempre preferiu se ligar a intelectuais da classe média como ele próprio.
Quando ele e Engels fundaram a Liga Comunista e, de novo, quando formaram a Internacional, Marx se certificou de que os socialistas que eram da classe trabalhadora fossem afastados de qualquer posto de influência e fizessem parte de comissões meramente como proletários regidos por um estatuto.
A razão para isso era, em parte, um esnobismo intelectual e, em parte, porque os homens com experiência real das condições numa fábrica ostumavam ser contra o uso da violência e a favor das melhorias simples e progressivas: eles eram inteligentemente incrédulos quanto à revolução apocalíptica que ele afirmava ser não apenas necessária mas inevitável.
Alguns dos ataques mais virulentos de Marx foram direcionados contra homens desse tipo.
Assim, em março de 1846, sujeitou William Weitling a uma espécie de julgamento antes de um encontro da Liga Comunista em Bruxelas.
Weitling era o filho pobre e ilegítimo de uma lavadeira que nunca soube o nome do pai dele, e era um aprendiz de alfaiate que apenas por meio de trabalho árduo e de autodidatismo conquistou um grande número de adeptos entre os trabalhadores alemães.
O objetivo do julgamento foi o de insistir na "correção" da doutrina e fazer calar qualquer trabalhador presunçoso que não tivesse a formação filosófica que Marx achava essencial.
O ataque de Marx contra Weitling foi extraordinariamente agressivo.
Ele era culpado, disse Marx, de comandar um tumulto sem doutrina.
Isso seria aceitável se acontecia na Rússia, onde "se podem criar associações com jovens e apóstolos estúpidos.
Mas num país civilizado como a Alemanha, devemos compreender que nada pode ser conseguido sem a nossa doutrina".
Ou ainda: "Se se tenta influenciar os trabalhadores, principalmente os
trabalhadores alemães, sem o corpo de uma doutrina e idéias científicas claras, então você estará jogando um jogo propagandístico vazio e inescrupuloso; servindo inevitavelmente para estimular, por um lado, um discípulo inspirado, e por outro, asnos vociferantes prestando atenção a
ele".
Weitling replicou que não tinha se tomado um socialista para aprender doutrinas elaboradas num gabinete; falava pelos trabalhadores verdadeiros e não se submeteria às opiniões de simples teóricos que estavam afastados do mundo de sofrimento dos verdadeiros trabalhadores.

Isso, disse uma testemunha ocular, "enfureceu Marx de tal modo que ele deu um soco na mesa com grande violência e a luminária balançou.
Ficando de pé num pulo, gritou:
‘A ignorância nunca ajudou ninguém’.
"O encontro terminou com Marx "ainda andando de um lado para o outro da sala num violento acesso de cólera".

Esse foi o modelo de ataques ulteriores, contra socialistas proletários e contra qualquer líder que tivesse conseguido um grande séqüito de 15 trabalhadores pregando soluções práticas para problemas reais ligados a trabalho e a salários, e não a uma revolução doutrinária.
Desse modo, Marx atacou o ex-tipógrafo Pierre-Joseph Proudhon, o reformador agrícola Hermann Kriege e o primeiro social-democrata alemão realmente importante e organizador de trabalhadores, Ferdinand Lassalle.

Em seu Manifesto contra Kriege, Marx, que nada sabia sobre agricultura, principalmente nos Estados Unidos, onde Kriege se estabelecera, denunciou seu propósito de dar 160 acres de terras do Estado para cada camponês;
disse que os camponeses deviam ser arregimentados por meio de promessas de terra, mas uma vez estabelecida a sociedade comunista, a terra seria usufruída coletivamente.
Proudhon era um anti-dogmático:
"Pelo amor de Deus", escreveu ele, "depois de termos destruído todo o dogmatismo [religioso] a priori, não vamos, entre todas as coisas, tentar incutir um outro tipo de dogma no povo (. . .) não nos transformemos em líderes de uma nova intolerância".
Marx detestava esse trecho.


Em sua diatribe violenta contra Proudhon, A miséria da filosofia, escrito em junho de 1846, acusou-o de "infantilismo", flagrante "ignorância" em economia e filosofia e, sobretudo, má utilização das idéias e técnicas de Hegel - "Monsieur Proudhon conhece tão pouco a dialética hegeliana quanto o idioma em que foi escrita".

Assim como no caso de Lassalle, ele se tomou uma vítima do mais brutal escárnio anti-semítico e racial de Marx: ele era o "Barão Itzig", "o Negro Judeu", "um judeu gorduroso oculto sob a brilhantina e as jóias baratas". "Agora está perfeitamente claro para mim", escreveu Marx para Engels a 30 de julho de 1862, "que, como indicam a forma de sua cabeça e o crescimento de seus cabelos, ele é descendente dos negros que se juntaram a Moisés em sua fuga do Egito (a não ser que sua mãe ou avó por parte de pai tenha tido relações com um negro).
Essa combinação do judeu com o alemão, tendo como base o negro, está destinada a produzir um híbrido insólito".

Desse modo, Marx não estava disposto a investigar, ele próprio, a situação da indústria nem a aprender nada com trabalhadores inteligentes que a tinham vivido.
Por que deveria?
Em todos os pontos essenciais, usando a dialética hegeliana, chegara a suas conclusões - em fins da década de 1840 - sobre o destino do homem.


O que restava era encontrar as informações para fundamentar essas conclusões, e isso podia ser tirado de reportagens de jornais, de livros azuis do governo ou de dados coletados por antigos autores; todo esse material era encontrado em bibliotecas.
Por que ir mais longe?
O problema, do modo como aparecia para Marx, era encontrar o tipo certo de informação: as informações adequadas.

Seu método foi bem resumido pelo filósofo Karl Jaspers:
“O estilo dos escritos de Marx não é o do investigador (. . .) ele não cita exemplos ou expõe fatos que se opõem a sua teoria mas apenas aqueles que provam ou confirmam aquilo que ele considera como a verdade última.
Toda a sua abordagem é no sentido da justificação, não da investigação, mas trata-se de uma justificação de algo declarado como sendo a perfeita verdade com a convicção não do cientista, mas do crente”.
[Karl Jaspers, "Marx und Freud", Der Monat, xxvi (1950).

[Obs. Esta tb é a forma de pensar de marxistas atuais.]

Nesse sentido, então, os "dados" não eram centrais ao trabalho de Marx; eles estavam subordinados, reforçando conclusões que já tinham sido alcançadas independentemente deles.
O capital, o monumento em tomo do qual girava sua vida de erudito, deveria ser visto, portanto, não como uma investigação científica sobre a natureza do sistema econômico que pretendeu descrever, mas como um exercício de filosofia moralista, um tratado comparável aos de Carlyle ou Ruskin.
Trata-se de um sermão gigantesco e no mais das vezes incoerente, um ataque ao sistema industrial e ao princípio de propriedade feito por um homem que tinha criado um ódio intenso, embora essencialmente irracional, em relação a ambos.

Curiosamente, essa obra não tem um argumento central que atue como um princípio organizador.

Marx originariamente, em 1857, planejou que a obra consistiria de sete volumes: o capital, a terra, o salário, o trabalho, o estado, o comércio e um último volume sobre o mercado e as crises internacionais.
Geoffrey Pilling, Marx' s Capital [O capital, de Marx] (Londres, 1980), p. 126.

Porém, a autodisciplina metódica precisaria levar a cabo tal plano, que provara estar além de suas capacidades.
O único volume que ele chegou a escrever (o qual, paradoxalmente, se encontra dividido em dois volumes) não possui de fato nenhuma forma coerente;
trata-se de uma série de exposições isoladas arrumadas numa ordem arbitrária.
O filósofo marxista francês Louis Althusser achou a estrutura da obra tão confusa que dizia ser "imperativo" que os leitores ignorassem a primeira parte e começassem da segunda, ou seja, do quarto capítulo.

Mas outros exegetas marxistas repudiaram veementemente essa interpretação.
De fato, a abordagem de Althusser não ajuda muito.
A sinopse que o próprio Engels fez do primeiro volume de O capital serve
para sublinhar a fragilidade ou mesmo a ausência de uma estrutura.
Depois da morte de Marx, Engels escreveu o segundo volume a partir de 1500 páginas duplas com anotações de Marx, sendo que reescreveu 1/4 do texto.
O resultado são 600 páginas enfadonhas e confusas sobre a circulação do capital e principalmente sobre as teorias econômicas da década de 1860.
O terceiro volume, no qual Engels trabalhou de 1885 a 1893, consiste num exame de todos os aspectos do capital que ainda não tinham sido abordados, mas não passa de uma série de anotações, incluindo 1000 páginas sobre a usura, a maior parte delas sendo lembretes de Marx.
Quase todo esse material data do começo da década de 1860, tendo sido acumulado ao mesmo tempo que Marx trabalhava no primeiro volume.
Na verdade, não houve nada que tivesse impedido Marx de terminar, ele próprio, o livro, a não ser falta de força de vontade e a consciência de que ele simplesmente não tinha coerência.

O segundo e o terceiro volumes não nos interessam, pois é bastante - ou mesmo completamente - improvável que Marx os tivesse escrito no formato em que se encontram, visto que ele tinha praticamente parado de trabalhar neles durante uma década ou mais.
Do primeiro volume, que foi escrito por ele, apenas nos interessam dois capítulos, o 8, "O dia de trabalho", e o 24, até o fim do segundo volume, "Acumulação primária", que inclui a famosa seção 7, "A tendência histórica de acumulação capitalista".
Não é, em nenhum sentido, uma análise científica, mas tão somente uma profecia.
Acontecerá, diz Marx,
(1) "uma diminuição progressiva no número de magnatas capitalistas";
(2) "um aumento correspondente na massa de pobreza, opressão, escravização, degradação e exploração";
(3) "uma constante intensificação do ódio da classe trabalhadora".


Essas três forças, trabalhando juntas, dão lugar à crise hegeliana, ou à versão político-econômica da catástrofe poética que ele tinha imaginado em sua adolescência:

"A centralização dos meios de produção e a socialização do trabalho chegam a um ponto em que se mostram incompatíveis com seu invólucro capitalista.
Esse invólucro explode em pedaços.
Soa o dobre de sinos da propriedade privada capitalista.
Os expropriadores são expropriados".
[Publicado em Engels on Capital [Engels sobre O capital] (Londres, 1938), pp. 68- 7 I.

Essas passagens são bem excitantes e têm encantado gerações de socialistas apaixonados.
Porém, não se sustentam como projeção científica mais do que o almanaque de um astrólogo.

O capítulo 8, "O dia de trabalho", se apresenta, por contraste, como uma análise fatual do impacto do capitalismo sobre as vidas do proletariado britânico; de fato, é a única parte da obra em que Marx trata realmente dos trabalhadores, que aparentemente são o motivo de toda a sua filosofia.
Por isso, é interessante examiná-la tendo em vista seu valor "científico".
Visto que, como já mencionamos, Marx na realidade só se interessava pelas informações que se adequavam a suas idéias preconcebidas, e visto que tal postura vai contra todas as regras do método científico, desde seu começo o capítulo tem uma imprecisão radical.
Porém, será que Marx, além de uma seleção de informações tendenciosa, também as deturpou ou falsificou?


Isso é o que temos de considerar agora.
O que se procura argumentar nesse capítulo - e esse é o cerne da questão moral de Marx - é que o capitalismo, por sua própria natureza, implica uma progressiva e crescente exploração dos trabalhadores; desse modo, quanto mais capital empregado, mais os trabalhadores serão explorados, e esse é o grande malefício moral que causa a crise derradeira.

A fim de justificar cientificamente sua tese, Marx deve provar que:
(1) se as condições nas oficinas pré-capitalistas estavam ruins, tinham se tornado bem piores no capitalismo industrial;
(2) uma vez admitida a natureza impessoal e implacável do capital, a exploração dos trabalhadores aumenta num crescendo na maioria das indústrias altamente capitalistas.


Marx nem tentou provar o n° (1).
Escreveu: "No que diz respeito ao período que vai desde o começo da industrialização em larga escala na Inglaterra até o ano de 1845, tocarei nesse assunto aqui e ali, indicando ao leitor, para maiores detalhes, o livro de Friedrich Engels, Die Lage der arbeitenden Klasse in England (Leipzig, 1845)".

Marx acrescenta que publicações posteriores do governo, especialmente os relatórios dos inspetores de fábrica, confirmaram "a análise de Engels sobre a natureza do sistema capitalista" e mostraram "com que admirável fidelidade para com o detalhe ele retratou a situação".

Em suma, toda a primeira parte da análise científica de Marx acerca das condições de trabalho no capitalismo em meados da década de 1860 se baseia numa única obra, o livro de Engels "A situação da classe operária na Inglaterra", publicado 20 anos antes.

E que valor científico, por sua vez, pode ser atribuído a essa única fonte?

Engels nasceu em 1820, filho de um próspero industrial de algodão em Barmen, no Rhineland, e entrou para a empresa da família em 1837.
Em 1842, foi mandado para o escritório da firma em Manchester, passando 20 meses na Inglaterra.
Durante esse período, esteve em Londres, Oldham, Rochdale, Ashton, Leeds, Bradford e Huddersfield tanto quanto em Manchester.

Desse modo, teve um contato direto com o comércio têxtil, porém, quanto ao mais, nada sabia em primeira mão sobre as condições de trabalho na Inglaterra.

Por exemplo, não conhecia nada sobre mineração e nunca desceu numa mina; nada sabia a respeito dos distritos do campo ou do trabalho rural.
Apesar disso, dedicou dois capítulos inteiros a "Os mineiros" e "O proletariado na terra".

Em 1958, dois estudiosos detalhistas, W.O. Henderson e W.H. Challoner, retraduziram e organizaram a publicação do livro de Engels e analisaram suas fontes e o texto original de todas as citações.
O efeito da análise deles foi acabar, quase por completo, com o valor histórico objetivo do livro e reduzi-lo ao que indubitavelmente era: um trabalho visando a polêmica política, um folheto de propaganda, uma diatribe.
Engels escreveu a Marx, enquanto trabalhava no livro: "Perante o julgamento da opinião pública, acuso as classes médias inglesas de assassinato em massa, roubo em grande escala e todos os outros crimes da lista"


Essa frase quase que resume o livro: tratava-se de uma acusação.
Uma grande parte do livro, inclusive toda a análise do período précapitalista e dos primeiros estádios da industrialização, não se baseava em fontes primárias mas em umas poucas fontes secundárias de valor
duvidoso, principalmente o livro de Peter Gaskell The Manufacturing Population of England [A população manufatureira. da Inglaterra] (1833), um trabalho de mitologia romântica que tentava provar que o século XVIII tinha sido uma época próspera para os pequenos fazendeiros e para os artesãos.

De fato, como foi demonstrado de forma concludente pela Comissão Superior de Emprego de Crianças de 1842, as condições de trabalho nas pequenas oficinas industriais e caseiras pré-capitalistas estavam bem piores do que nas grandes e modernas fiações de Lancashire.
As fontes primárias impressas utilizadas por Engels estavam cinco, dez, vinte, vinte e cinco ou até quarenta anos defasadas, embora geralmente as apresentasse como sendo atuais.
Ao apresentar os números estatísticos
relativos aos partos de crianças ilegítimas, os quais eram atribuídos aos turnos da noite, deixou de declarar que eles datavam de 180l.
Citou um trabalho sobre as condições sanitárias em Edinburgh sem deixar que seus leitores soubessem que tinha sido escrito em 1818.
Em várias ocasiões, omitiu dados e acontecimentos que invalidavam completamente suas informações obsoletas.

Nem sempre fica claro se as deturpações de Engels servem para enganar o leitor ou para se auto-iludir.

Porém, às vezes o engano é claramente intencional.
Utilizou-se de informações relativas a más condições de trabalho reveladas pela Comissão de Inquérito das Fábricas de 1833 sem contar aos leitores que a Lei Fabril criada pelo Lord Althorp em 1833 tinha sido aprovada, e desde então tinha sido posta em prática, exatamente para acabar com as condições descritas no relatório.

Usou o mesmo estratagema ao recorrer a uma de suas principais fontes, o livro do dr. J.P. Kay, Physical and Moral Conditions of the Working Classes Employed in the Cotton Manufacture in Manchester [As condições físicas e
19 morais das classes trabalhadoras empregadas na indústria de algodão em Manchester] (1832), que tinha concorrido para que se fizessem reformas fundamentais nas medidas sanitárias do governo local;
Engels não as mencionou.
Interpretava erroneamente as estatísticas criminais - ou as ignorava - quando não confirmavam sua tese.
Na verdade, suprimia informações, com freqüência e conscientemente, quando eram contrárias a sua argumentação ou invalidavam uma determinada "iniqüidade" que ele procurava revelar.

A verificação cuidadosa das citações que Engels extraiu de suas fontes secundárias fazem ver que elas eram amiúde mutiladas, condensadas, adulteradas e deturpadas, porém, invariavelmente apresentadas entre aspas como se fossem textuais.

Por toda a edição do livro organizada por Henderson e Challoner, as notas de pé de página representam uma lista das distorções e inexatidões de Engels.
Apenas em uma seção, o sétimo capítulo, "O proletariado", os erros, de informações e de transcrições, acontecem nas páginas 152, 155, 157, 159, 160,.163, 165, 167, 168, 170, 172, 174, 178, 179, 182, 185, 186, 188, 189, 190, 191, 194 e 203.

Marx não podia ignorar essas fraquezas, na verdade desonestidades, do livro de Engels, visto que muitas delas foram expostas em detalhe já em 1848 pelo economista alemão Bruno Hildebrand, numa publicação com a qual Marx estava familiarizado.
Além disso, o próprio Marx acobertou conscientemente as distorções de Engels, deixando de revelar ao leitor as grandes melhorias acarretadas, desde que o livro tinha sido publicado, pela execução das Leis Fabris e de outras leis remediadoras, as quais afetaram exatamente as. condições para as quais ele tinha chamado a atenção.

De qualquer maneira, Marx empregou, na utilização das fontes primárias e secundárias, o mesmo espírito de descaso flagrante, de distorção tendenciosa e de inequívoca desonestidade que marcou a obra de Engels.
Na verdade, eles geralmente colaboravam no logro, embora fosse Marx o falsificador mais audacioso.
Num caso particularmente escandaloso, ele se superou.
Trata-se do chamado "Discurso inaugural" para a Associação Internacional de Trabalhadores, fundada em setembro de 1864.
Com o objetivo de tirar a classe operária inglesa de sua apatia e, por conseguinte, ansioso para provar que as normas existentes estavam perdendo o valor, falsificou intencionalmente uma frase do discurso de 1863 de W.E. Gladstone relacionado com os gastos orçamentários.
O que Gladstone disse, ao comentar o aumento da riqueza nacional, foi: "Eu deveria encarar quase com apreensão e com pesar esse aumento inebriante da riqueza e do poder se achasse que tal aumento se limitou à classe que está em condições mais favoráveis".
Porém, acrescentou ele, "a situação geral dos trabalhadores britânicos, como temos a felicidade de saber, melhorou ao longo dos últimos 20 anos num grau que, como sabemos, é extraordinário, e que quase devemos declarar como sendo sem paralelo na história de qualquer país em qualquer época".
Marx, em seu discurso, atribuiu a Gladstone as seguintes palavras:
"Esse aumento inebriante de riqueza e poder se limita inteiramente às classes proprietárias".

Sendo verdade o que Gladstone realmente falou, já que foi confirmado por uma grande quantidade de dados estatísticos, e sendo ele famoso, de qualquer modo, por sua preocupação relacionada com a necessidade de assegurar que a riqueza fosse distribuída tão amplamente quanto possível, seria difícil imaginar uma inversão mais afrontosa do sentido original de sua frase.
Marx citou como fonte o jornal Morning Star;
porém, o Star, assim como outros jornais e o Hansard, publicou corretamente as palavras de Gladstone.
A citação incorreta de Marx foi apontada.

Entretanto, ele a reproduziu em O capital, juntamente com outras discrepâncias, e quando a falsificação foi novamente percebida e denunciada, ele fez uma grande confusão a fim de tumultuar o debate; ele,
Engels e, mais tarde, sua filha Eleanor se envolveram na discussão, tentando defender o indefensável, por 20 anos.
Nenhum deles jamais admitiria a falsificação primária e patente, e o resultado do debate é que alguns dos leitores ficam com a impressão, como era o propósito de Marx, de que a controvérsia possuía dois lados.
Pois não possuía.
Marx sabia que Gladstone nunca disse uma coisa daquelas, e o engano foi intencional.
Não foi a única vez. Marx falsificou, do mesmo modo, citações de Adam Smith.

A sistemática utilização errônea de fontes por parte de Marx chamou a atenção, na década de 1880, de dois estudiosos de Cambridge.
A partir da edição francesa revista de O capital (1872 a 1875), escreveram um ensaio para o Clube de Economia de Cambridge "Comentários sobre o uso dos livros azuis por Karl Marx no capítulo XV de Le capital" (1885).

Eles contam que em princípio verificavam as referências de Marx "para obter informações completas sobre certos tópicos", porém, impressionados com as "discrepâncias que se acumulavam", decidiram analisar "o alcance e a importância dos erros que se apresentavam de forma tão manifesta".
Descobriram que as diferenças entre os textos dos livros azuis e as citações que Marx tirava deles não eram resultado apenas de enganos mas "mostravam sinais de uma influência deturpadora".
Num dos grupos de erros, descobriram que as citações tinham sido, amiúde, "abreviadas por conveniência por meio da omissão de passagens que provavelmente iriam contra as conclusões que Marx tentava provar".

Um outro grupo "consiste em reunir citações fictícias a partir de afirmações isoladas que constam de diferentes partes de um relatório.
Essas afirmações eram então apresentadas entre aspas ao leitor como se fossem citadas diretamente dos próprios livros azuis".

Num tópico, a máquina de costura, "se utiliza dos livros azuis com uma imprudência espantosa (. . .) a fim de provar exatamente o contrário do que eles realmente mostram".
Concluem que seus dados podem não ser "suficientes para sustentar uma acusação de falsificação intencional", mas com certeza demonstram "um descaso quase criminoso no uso de fontes autorizadas" que nos levam a encarar todas as "outras partes da obra de Marx com desconfiança".


A verdade é que, mesmo o exame mais superficial da utilização que Marx fez das informações nos obriga a encarar com ceticismo tudo o que ele escreveu baseando-se em dados fatuais.
Nunca se pode confiar nele.

Todo o importante capítulo 8 de O capital é uma falsificação deliberada e sistemática visando provar uma tese que uma análise objetiva das informações demonstra ser insustentável.

Seus crimes contra a verdade são de quatro tipos:


Em primeiro lugar, se utilizou de informações obsoletas porque as ainda válidas não confirmavam suas alegações.

Em segundo lugar, escolheu determinadas indústrias onde as condições de trabalho eram particularmente ruins, como sendo típicas do capitalismo.
Esse estratagema, em especial, foi importante para Marx, pois sem ele não
haveria como escrever o capítulo 8.
Sua tese era de que o capitalismo dá lugar a condições de vida cada vez piores; quanto mais capital é empregado, pior os trabalhadores devem ser tratados para que se assegurem rendimentos convenientes.

Os dados que ele citou detalhadamente para justificar esse raciocínio derivavam, quase em sua totalidade, de empresas pequenas, ineficientes e pouco capitalizadas ligadas a indústrias arcaicas que na maioria dos casos eram pré-capitalistas - por exemplo: cerâmica, costura, ferraria, padaria, fábricas de caixas de fósforo, de papel de parede e de cordão de sapato.
Em muitos dos casos específicos que ele cita (e.g., padaria), as condições de trabalho eram ruins exatamente porque a firma não tinha tido condições de implantar máquinas,. uma vez que faltava capital.

Desse modo, Marx lida com as condições pré-capitalistas, e ignora a verdade que salta aos olhos: quanto mais capital, menos sofrimento.

Quando ele analisa uma indústria moderna e altamente capitalizada, não encontra provas.
Desse modo, quando trata do aço, tem de recorrer a comentários interpolados ("Que franqueza sarcástica!", "Que fraseologia hipócrita!").

No caso das ferrovias, Marx é obrigado a se utilizar de recortes de jornais amarelecidos sobre velhos acidentes ("catástrofes ferroviárias recentes"): era necessário, para sua tese, que o número de acidentes por passageiro a cada 1,5 km percorrido aumentasse, quando na verdade ele estava diminuindo drasticamente e, na época em que O capital foi publicado, os trens já estavam se tornando o mais seguro meio de transporte de massa em toda a história.


Em terceiro lugar, ao se utilizar de relatórios da inspetoria das fábricas, Marx mencionou exemplos de más condições e maus-tratos sofridos por trabalhadores como se essas fossem regras inerentes ao sistema; na verdade, os responsáveis por essas condições eram o que os próprios inspetores chamavam de "os donos de fábrica fraudulentos", os quais cabia a eles desmascarar e processar e que, desse modo, estavam em via de ser afastados.

Em quarto lugar, o fato de as principais informações de Marx provirem dessa fonte, a inspetoria, revela o maior de seus logros. Trata-se da tese de que o capitalismo era, por natureza, incorrigível e, pior, de que nos sofrimentos infligidos pelo sistema aos trabalhadores, o Estado burguês era seu aliado, já que o Estado, escreveu ele, "é uma comissão executiva para administrar os negócios da classe dominante como um todo".
Porém, se isso fosse verdade, o Parlamento nunca teria aprovado as Leis Fabris, nem o Estado as teria posto em prática.
Praticamente todas as informações de que Marx dispunha, dispostas (e às vezes falsificadas) de forma seletiva como estavam, derivavam do esforço do Estado (inspetores, cortes, juizes de paz) no sentido de melhorar as condições de vida, o que implicava necessariamente desmascarar e punir os responsáveis pelas más condições.
Se o sistema não estivesse num processo de auto-reformulação - o que pelo raciocínio de Marx era impossível -, O capital não poderia ter sido escrito.
Como ele não estava disposto a fazer nenhuma pesquisa de campo por conta própria, foi obrigado a se basear exatamente nas informações daquela que ele denominou como "a classe dominante", que estava tentando pôr as coisas no lugar e, cada vez em maior grau, o conseguia.
Desse modo, Marx teve de deturpar sua principal fonte de informação para não abandonar sua tese.
O Capital era, e é, desonesto em sua estrutura.


O que Marx não podia ou não iria compreender - por não ter feito nenhum esforço para entender o funcionamento de uma indústria - era que desde os primórdios da Revolução Industrial, de 1760 a 1790, os industriais mais eficientes, que tinham amplo acesso ao capital, geralmente propiciavam melhores condições para seus empregados; por isso, eles costumavam defender a legislação relativa às fábricas e, o que era igualmente importante, sua execução efetiva, pois ela acabava com o que eles consideravam uma competição injusta.
Desse modo, as condições melhoravam e, por conta disso, os trabalhadores paravam de se revoltar, contrariando o que Marx tinha previsto.
Assim, o profeta se viu confuso.

O que se percebe depois de uma leitura de O capital é a incapacidade inata em Marx de entender o capitalismo.

Ele fracassou exatamente por não ser científico: não pesquisou, ele próprio, as informações nem se utilizou com objetividade das que foram pesquisadas por outras pessoas.

Do começo até o fim, não apenas O capital mas toda sua obra reflete uma
desconsideração pela verdade que às vezes beira o desprezo.

Essa é a razão primária pela qual o marxismo, enquanto um sistema, não pode chegar aos resultados que lhe imputam, sendo que chamá-lo de "científico" chega a ser um absurdo.
Por isso, se Marx, apesar da aparência de erudito, não estava motivado por um amor à verdade, qual foi a força motivadora em sua vida?


A personalidade.
Para descobrir isso, temos de examinar muito mais de perto sua personalidade.
É verdade - e em certos aspectos uma triste verdade - que as grandes obras do intelecto não provêm da atividade abstrata do cérebro e da imaginação; estão profundamente enraizadas na personalidade.
Marx é um exemplo notável desse princípio.
Já analisamos a apresentação de sua filosofia como sendo o amálgama de sua visão poética, de seu talento jornalístico e de seu academicismo.
Mas também pode ser demonstrado que o conteúdo real dessa filosofia se liga a quatro aspectos de seu caráter:
o gosto pela violência,
o desejo de poder,
a inabilidade de lidar com dinheiro,
a tendência de explorar os que se encontravam a sua volta.

A sugestão de violência, sempre presente no marxismo e demonstrada com freqüência pelo próprio comportamento dos regimes marxistas, representa uma projeção do temperamento de seu criador.


Marx passou sua vida num ambiente de extrema violência verbal, onde periodicamente ocorriam brigas e, às vezes, ataques físicos.
As brigas na família de Marx foram a primeira coisa que sua futura esposa, Jenny von Westphalen, percebeu a seu respeito.
Na Universidade de Bonn, a polícia o prendeu por possuir uma pistola, e ele por muito pouco não foi suspenso; nos arquivos da universidade, aparece por ter-se envolvido em conflitos estudantis, disputado um duelo e se cortado no olho esquerdo.
Suas brigas com a família entristeceram os últimos anos de vida do pai e acarretaram, por fim, uma ruptura definitiva com sua mãe.
Numa das cartas mais antigas de Jenny que foram conservadas, se lê:
"Por favor, não escreva com tanto rancor e irritação";.

E fica patente que muitas de suas incessantes desavenças se deviam às expressões violentas que costumava usar quando escrevia ou, mais ainda, quando falava, e nesse último caso a situação era, no mais das vezes, agravada pelo álcool.

Marx não era um alcoólatra, embora bebesse com regularidade, geralmente em grande quantidade, e às vezes se envolvesse em perigosas bebedeiras.
Em parte, seu problema era que, desde os 25 anos, Marx sempre foi um exilado
vivendo quase exclusivamente em comunidades de expatriados, em sua
maioria alemães, em cidades estrangeiras.
Raramente procurava fazer amizades fora delas e nunca tentava se integrar.
Além disso, os expatriados com que sempre se relacionava eram, eles próprios, um pequeno grupo exclusivamente em política revolucionária.
Esse fato, por si, ajuda a entender a visão estreita que Marx tinha da vida, e seria difícil imaginar um cenário social mais propenso a estimular sua natureza belicosa, pois esses círculos eram famosos por suas disputas violentas.
Segundo Jenny, as desavenças só não foram constantes em Bruxelas.
Em Paris, seus encontros na Rue des Molins para tratar de colaborações em jornais tinham de se dar atrás de janelas fechadas de modo que os transeuntes não pudessem ouvir a gritaria interminável.
Entretanto, essas brigas não foram sem propósito.
Marx brigava com todas as pessoas com as quais se relacionava - de Bruno Bauer em diante - , a menos que conseguisse dominá-las completamente.
Em conseqüência, existem várias descrições, em sua maior parte hostis, do furioso Marx em ação.
O irmão de Bauer chegou a escrever um poema sobre ele.
"O velho camarada de Trier, em fúria vociferando,
Seu punho maligno está cerrado, ele grita interminavelmente,
Como se dez mil demônios o dominassem".
Payne, pag. 31.

***

[Edgar Bauer describes Marx as:

a swarthy chap of Trier,
a marked monstrosit He neither hops nor skips,
but moves in leaps and bounds Raving aloud…
He shakes his wicked fist, raves with a frantic air
As if ten thousand devils had him by the hair.]

[Nota: Texto semelhante de Engels:

A swarthy chap of Trier, a marked monstrosity.
He neither hops nor skips, but moves in leaps and bounds,
Raving aloud. As if to seize and then pull down
To Earth the spacious tent of Heaven up on high]

Fonte:
http://www.marxists.org/archive/marx/works/cw/volume02/preface.htm

***

Marx era baixo, largo, tinha cabelo e barba pretos, uma pele amarelada (seus filhos o chamavam de "Mouro") e usava um monóculo no estilo prussiano.

Pavel Annenkov, que o viu no "julgamento" de Weitling, descreveu sua "espessa e negra cabeleira, suas mãos peludas e a sobrecasaca abotoada indevidamente"; era mal-educado, "presunçoso e ligeiramente sobranceiro (arrogante, que se acha superior)"; sua "voz aguda e metálica se adequava bem às sentenças radicais que ele proferia continuamente sobre os homens e as coisas"; tudo o que dizia tinha um "tom áspero".

Sua obra favorita de Shakespeare era Tróilo e Créssida, da qual gostava da troca de insultos entre Ajax e Tersites.
Adorava citá-la, e a vítima de um trecho ("Tu, senhor de espírito apalermado: não possuis mais miolos do que eu em meu
cotovelo").

Foi seu companheiro revolucionário Karl Heinzen, que revidou com um retrato memorável do pequeno homem raivoso.
Achava Marx "intoleravelmente desprezível", o resultado do "cruzamento entre um gato e um macaco", com "cabelos desgrenhados pretos como carvão e com a tez suja e amarelada".
"impossível dizer se suas roupas e sua pele eram da cor de lama por natureza ou se estavam apenas sujas."
Tinha olhos pequenos, ameaçadores e maliciosos, "emitindo faíscas de um fogo repulsivo"; tinha o hábito de dizer: "Eu vou aniquilar você".


[Nota: O relato de Geinzen foi publicado em Boston em 1864; citado em Payne, p. 155.]

De fato, Marx gastava grande parte de seu tempo compilando dossiês minuciosos sobre seus rivais e inimigos políticos, os quais ele não hesitava em apresentar à polícia se achasse que lhe seria útil.
As grandes brigas públicas, como por exemplo no encontro da Internacional em Hague, em 1872, prenunciava os réglements des comptes [acertos de conta] da Rússia soviética: não há nada no período de Stalin que não estivesse prefigurado, de uma grande distância no tempo, pelo comportamento de Marx.
Às vezes, havia de fato sangue derramado. Marx foi tão ofensivo durante sua briga com August von Willich, em 1850, que este desafiou-o para um duelo.
Marx, apesar de ter sido duelista no passado, disse que "não se envolveria nas brincadeiras dos oficiais prussianos", porém não fez nenhuma tentativa de evitar que seu jovem assistente, Konrad Schramm, tomasse o seu lugar, embora Schramm nunca tivesse usado uma pistola na vida e Willich fosse um atirador excelente.
Schramm foi ferido.
O padrinho de Willich nessa ocasião foi um aliado particularmente perigoso de Marx, Gustav Techow, merecidamente odiado por Jenny, o qual matou pelo menos um companheiro revolucionário e acabou sendo enforcado por assassinar um oficial da polícia.

O próprio Marx não era contra a violência ou mesmo o terrorismo quando se adequavam a sua tática.
Dirigindo-se ao governo prussiano em 1849, fez a seguinte ameaça:
"Nós somos impiedosos e não queremos nenhum centavo de vocês. Quando chegar a nossa vez, não vamos reprimir nosso terrorismo".
[We are ruthless and ask no quarter from you. When our turn comes we shall not disguise our terrorism.]


No ano seguinte, o "Plano de ação" que ele tinha distribuído especificamente na Alemanha estimulava a violência do populacho:
"Longe de sermos contrários aos chamados excessos, aqueles exemplos de vingança popular contra construções particulares ou públicas que têm um passado detestável, temos de não apenas perdoá-los, como também cooperar neles".
[Far from opposing the so-called excesses, those examples of popular vengeance against hated individuals or public buildings which have acquired hateful memories, we must not only condone these examples but lend them a helping hand.]

***
Nota:

Marx-Engels Gesamt-Ausgabe, vol. vi, pp. 503-5

http://www.bbaw.de/bbaw/Forschung/Forschungsprojekte/mega/en/Startseite

***

Em certas ocasiões, quis defender o assassinato, contanto que fosse eficaz.
Um companheiro revolucionário, Maxim Kovalevsky, que estava presente quando Marx recebeu a notícia de uma tentativa fracassada de assassinar o imperador Guilherme I no Unter den Linden, em 1878, recorda a fúria de Marx, "cobrindo de maldições esses terroristas que tinham falhado em executar sua ação terrorista".

Parece certo que Marx, uma vez estabelecido no poder, teria sido capaz de grande violência e crueldade.
Porém, é claro que ele nunca esteve em condição de levar a efeito uma revolução em larga escala, violenta ou de qualquer outro tipo, e por esse motivo sua raiva recalcada se refletiu em seus livros, que sempre têm um tom de intransigência e extremismo. Muitas passagens dão a impressão de que foram realmente escritas em estado de cólera.
No devido tempo, Lenin, Stalin e Mao Tse-tung puseram em prática, numa imensa escala, a violência que Marx trazia em seu íntimo e que transpira em sua obra.

Como Marx encarava de fato a moralidade de suas ações, quando deturpava a verdade ou estimulava a violência, é impossível dizer.
Num certo sentido ele era um homem fortemente moralista.
Tinha o desejo ardente de criar um mundo novo.
Apesar disso, ridicularizou o moralismo em A ideologia alemã; argumentou que "não era científico" e poderia ser um obstáculo para a revolução.

Parece ter pensado que, como conseqüência de uma mudança quase metafísica acarretada pelo advento do comunismo, esse moralismo seria dispensado.
Como a maioria das pessoas egocêntricas, costumava pensar que as leis morais não se aplicavam em seu próprio caso, ou então identificava seus interesses com a moralidade enquanto tal.
Decerto, chegou a considerar os interesses do proletariado e o cumprimento de seus próprios pontos de vista como sendo coextensivos.
O anarquista Michael Bakunin observou que ele tinha "uma devoção fervorosa à causa do proletariado, embora ela estivesse sempre misturada com a vaidade pessoal".

Sempre foi egocêntrico; existe uma extensa carta sua escrita na juventude aparentemente para seu pai que na verdade foi escrita para - e sobre - si próprio.
Os sentimentos e as opiniões dos outros nunca eram de muito interesse para ele nem o afetavam.
Ele tinha de dar prosseguimento, sozinho, a qualquer realização na qual estava envolvido.
De seu trabalho de editor do jornal Neue Rheinische Zeitung, Engels observou: "A organização do quadro de pessoal ligado à editoria era uma verdadeira ditadura de Marx". [Marx-Engels, Collected Works, vol. ii,pp. 330-31.]

Ele não dedicava nenhum tempo nem tinha qualquer interesse pela democracia, a não ser no sentido especial e perverso que ele atribuía à palavra; qualquer tipo de eleição lhe era abominável - num texto jornalístico, mostrou desprezo pelas eleições gerais britânicas chamando-as, de simples orgias alcoólicas. [Marx, On Britain (Sobre a Inglaterra) (Moscou, 1962), p. 373.]

Nos depoimentos, de várias fontes, sobre a postura e as intenções políticas de Marx, é surpreendente a quantidade de vezes que aparece a palavra "ditador".
Annenkov chamou-o de "a personificação de um ditador democrata" (1846).

Um policial prussiano particularmente inteligente que o denunciou em Londres, observou: "O traço dominante de seu caráter é uma ambição ilimitada e um amor pelo poder (. . .) ele é o chefe absoluto de seu partido (. . .) faz tudo por conta própria e dá ordens sob sua própria
responsabilidade e não vai tolerar nenhuma oposição".

Techow (o perigoso padrinho de Willich no duelo), que certa vez fez com que Marx ficasse bêbado e se abrisse com ele, fez um notável retrato estilizado de Marx.
Era "um homem com uma personalidade proeminente", com "uma rara superioridade intelectual" e "se seu coração correspondesse a sua inteligência e ele possuísse, na mesma proporção, amor e ódio, teria posto minha mão no fogo por ele".
Porém, "falta-lhe grandeza de alma.
Estou convencido de que ambição pessoal bastante perigosa consumiu tudo o que ele tinha de bom (. . .) a obtenção de poder pessoal [é] o objetivo de tudo o que ele faz".

Em seu julgamento final sobre Marx, Bakunin bate na mesma tecla: "Marx não acredita em Deus mas acredita bastante em si mesmo e faz todo mundo o servir.
Seu coração não é cheio de amor mas de rancor, e ele tem muito pouca simpatia pela raça humana".



A raiva comum em Marx, seus hábitos ditatoriais e seu rancor refletiam, sem dúvida, sua consciência justificada de possuir grandes potencialidades e sua intensa frustração pela incapacidade de exercê-las de forma mais efetiva.
Quando jovem, levou uma vida boêmia, na maior parte do tempo ociosa e devassa; quando já era um homem de meia-idade, ainda achava difícil trabalhar de forma sensata sistemática, costumava ficar a noite inteira conversando e depois, durante quase todo o dia, se deitava sonolento no sofá.

Quando ficou mais velho, manteve horários mais regulares mas nunca conseguiu se autodisciplinar para o trabalho.
Apesar disso, se ofendia com qualquer crítica.
Era uma das características que compartilhou com Rousseau o fato de costumar brigar com amigos e benfeitores, especialmente se eles lhe davam bons conselhos.

Quando seu dedicado companheiro, o dr. Ludwig Kugelmann, sugeriu, em 1874, que ele não encontraria nenhuma dificuldade em terminar O capital se conseguisse tão somente organizar um pouco mais sua vida, Marx cortou relações com ele para sempre e submeteu-o a uma série de insultos implacáveis. [E. g., Marx-Engels Gesamt-Ausgabe, voI. xxxiii, p. 117.]

Seu egoísmo irascível tinha causas físicas tanto quanto psicológicas.
Levava uma vida particularmente insalubre: fazia pouquíssimo exercício, comia comidas altamente condimentadas e amiúde em grandes quantidades, fumava abundantemente, bebia bastante, em especial a forte cerveja ale, e em conseqüência sempre tinha problemas com seu fígado.
Raramente tomava banhos ou se lavava de qualquer modo, o que, juntamente com sua dieta inadequada, explica os verdadeiros acessos de furúnculos dos quais sofreu durante um quarto de século.
Eles fizeram aumentar sua natural irritabilidade e pelo visto estavam em sua pior fase na época em que escrevia O capital. "O que quer que aconteça", escreveu ameaçador a Engels, "enquanto a burguesia existir, espero que ela tenha motivo para se lembrar de meus carbúnculos". [Marx-Engels Gesamt-Ausgabe, voI. xxxi, p. 305.]

Os furúnculos variavam em número, tamanho e intensidade, porém, de uma hora para outra apareciam em todas as partes de seu corpo, inclusive nas bochechas, no cavalete do nariz, nas nádegas, o que o impedia de escrever, e no pênis.
Em 1873, esses furúnculos causaram um colapso nervoso caracterizado por extraordinários ataques de raiva que lhe causavam estremecimentos.

Sua grotesca incompetência de lidar com dinheiro era ainda mais essencial como causa de sua raiva e de sua frustração e estava talvez bem na raiz de seu ódio ao sistema capitalista.
Quando jovem, essa característica o deixou à revelia dos agiotas que trabalhavam a altas taxas de juro, e um veemente ódio à usura representou a base da dinâmica emocional de toda a sua filosofia moral.

Isso explica por que ele dedicou tanto tempo e espaço ao assunto, por que toda a sua teoria sobre as classes está enraizada no anti-semitismo e por que ele incluiu n`O capital uma passagem extensa e violenta de denúncia contra a usura, a qual foi tirada de uma das diatribes anti-semíticas de Lutero. [Isso aparece como uma nota de pé de página em O capital, vols. i, ii e vii, capítulo 22.]

Os problemas de Marx com o dinheiro começaram na universidade e duraram toda a sua vida.
Derivam de uma atitude essencialmente infantil.
Marx pedia dinheiro emprestado de forma insensata, gastava-o e depois ficava invariavelmente surpreso e nervoso quando as letras de câmbio altamente descontadas, somados os juros, venciam.
Ele via a cobrança de juros, que é essencial a qualquer sistema que se baseie no capital, como um crime contra a humanidade e como causa da exploração do homem pelo homem, que seu sistema filosófico estava fadado a extinguir.
Isso. era em termos gerais.
Mas no contexto particular de seu próprio caso, reagia às dificuldades sozinho, explorando qualquer um que estivesse a seu alcance e, em primeiro lugar, sua própria família.


O dinheiro era o assunto dominante na correspondência mantinha com a família.
Na última carta de seu pai, escrita em fevereiro de 1838, quando já estava morrendo, ele reitera sua queixa de que Marx não dava importância para a família a não ser para conseguir ajuda e para se lamentar: "Você está agora no quarto mês de seu curso de advocacia e já gastou 280 táleres.
Eu não ganhei tanto dinheiro durante todo o inverno"
. [Citado em Payne, p. 54.]
Três meses mas tarde, ele morreu.
Marx não se preocupou em assistir a seu enterro.
Em vez disso, começou a pressionar sua mãe.
Já tinha adotado um meio de viver à custa de empréstimos de amigos e de conseguir quantias periódicas da família.
[Nota: Depois conseguiu doações para as instituições que fundou, como a IS e a Liga]


Alegava que a família era "bastante rica" e tinha a obrigação de apóia-lo em seu importante trabalho.
A não ser no caso de sua atividade jornalística ocasional, cujo propósito era muito mais fazer política do que ganhar dinheiro, Marx nunca procurou seriamente arranjar um emprego, embora certa vez tenha concorrido, em Londres (em setembro de 1862), ao cargo de escrivão ferroviário, tendo sido rejeitado por ter uma caligrafia muito ruim.

A falta de vontade de Marx de procurar uma profissão parece ter sido a razão principal pela qual sua família se mostrava indiferente a seus pedidos de esmola.
Sua mãe não apenas recusou pagar suas dívidas, acreditando que logo ele se endividaria outra vez, mas acabou por deserdá-lo completamente.
Daí em diante, suas relações passaram a ser mínimas.
Atribui-se a ela o desejo mordaz de que "Karl acumulasse capital em vez de apenas escrever sobre ele".
Ainda assim, de um modo ou de outro Marx teve direito, por herança, a quantias de dinheiro consideráveis.
A morte do pai lhe rendeu 6000 francos de ouro, dos quais gastou uma parte provendo de armas os trabalhadores belgas.
A morte da mãe, em 1856, lhe rendeu menos do que esperava, mas isso se deveu ao fato de que ele tinha antecipado o pagamento da herança ao pedir emprestado a seu tio Philips.
Recebeu também uma grande quantia do espólio de Wilhelm Wolf, em 1864.
Outras quantias vieram por intermédio de sua esposa e da família dela (ela também trouxe, como parte de seu dote, um serviço de jantar de prata com o brasão de seus antepassados de Argyll, um faqueiro timbrado e roupa de cama).

Heranças, empréstimos transformaram-se, do mesmo modo, em ninharia, e eles nunca experimentaram uma situação de aumento de renda por muito tempo.
Na verdade, sempre estavam endividados, e geralmente devendo uma grande quantia, e o serviço de jantar de prata com freqüência ia para a mão dos agiotas, junto com muitas outras coisas, inclusive a roupa da família.

Numa ocasião, Marx estava prestes a desistir de sua casa, conservando um par de calças.
A família de Jenny, assim como a própria família de Marx, se recusou a dar maiores ajudas a um genro que considerava como sendo ocioso e imprudente.
Em março de 1851, escrevendo a Engels para anunciar o nascimento de uma filha, Marx se queixou: "Não tenho, literalmente, nem um centavo em casa".
Por essa época, é claro, Engels era a mais recente vítima da exploração.
Desde meados da década de 1840, quando se encontraram pela primeira vez, até a morte de Marx, Engels foi a maior fonte de renda da família Marx.
É provável que ele tenha cedido mais da metade de tudo o que ganhou.
Porém, é impossível se computar o total pois durante um quarto de século Engels forneceu quantias de dinheiro irregulares, acreditando nas promessas de Marx de que sua situação logo estaria ajeitada, visto que estava para chegar a pr6xima doação.
O relacionamento se baseava na exploração por parte de Marx e era completamente desigual, já que ele era sempre o parceiro que dominava, e às vezes oprimia.
Apesar disso, de um modo curioso, cada um precisava do outro, como um par de comediantes teatrais num número a dois, incapazes de representar separados, resmungando a toda hora mas sempre mantendo-se unidos no final.
A parceria quase se desfez em 1863, quando Engels sentiu que a mendicância insensível de Marx tinha ido longe demais.
Engels tinha duas casas em Manchester, uma para receber pessoas relacionadas com seus negócios e a outra para sua amante, Mary Burns.
Quando ela morreu, Engels ficou profundamente triste.
Ficou furioso de receber de Marx uma carta insensível (datada de 6 de janeiro de 1863),
em que reconhece sua perda com brevidade e então, imediatamente, recai no assunto mais importante: um pedido de dinheiro.
Não há nada que ilustre melhor o indissolúvel egocentrismo de Marx.
Engels respondeu com frieza, e o incidente quase representou o fim do relacionamento. Em alguns aspectos, ele nunca mais foi o mesmo, pois deixou claro para Engels as limitações da personalidade de Marx.

Parece ter decidido, por essa época, que Marx nunca seria capaz de conseguir um emprego ou sustentar sua família, ou mesmo pôr ordem em seus negócios.
A única coisa a fazer era pagar-lhe com regularidade um donativo.
Então, em 1869, Engels vendeu sua empresa, assegurando para si uma renda de um pouco mais de 800 libras por ano.
Dessas, 350 iam para Marx.

Por conseguinte, durante os últimos 15 anos de vida, Marx foi pensionista de um rentier, e experimentou uma certa segurança.
No entanto, pelo visto gastava cerca de 500 libras - ou mais - por ano, se justificando para Engels: "Mesmo examinando-se pelo lado comercial, uma organização puramente proletária seria inadequada nesse caso".
Portanto as cartas solicitando de Engels donativos adicionais continuaram. [Para mais informações a respeito das finanças de Marx, ver David McLeIlan, Karl Marx: Interviews and Recollections [Karl Marx: entrevistas e recordações] (Londres, 1981)]

Porém, é claro que as vítimas principais da imprudência e da relutância de Marx para trabalhar foram seus próprios familiares, sobretudo sua esposa.
Jenny Marx é uma das personagens trágicas e lamentáveis da história do socialismo.
Tinha a coloração clara dos escoceses, uma pele pálida, olhos verdes e o cabelo castanho-avermelhado de sua avó por parte de pai, descendente do segundo conde de Argyll, morto em Flodden.
Ela era bonita e Marx a amava - seus poemas o provam -, e ela o amava apaixonadamente, travando batalhas ao mesmo tempo com sua família e consigo mesma; só depois de muitos anos de amargura esse amor se extinguiria.

Como poderia um egoísta como Marx inspirar tal afeição?
A resposta, penso eu, é que ele era forte, dominador, bonito durante a juventude e na meia-idade, apesar de sempre sujo.
E não menos importante: ele era engraçado.

Os historiadores prestam muito pouca atenção nessa qualidade; ela geralmente ajuda a explicar um fascínio que de outra forma parece misterioso (era uma das vantagens de Hitler, como orador tanto em lugares reservados como em público).
O humor de Marx era sempre sarcástico e enraivecido.
Entretanto, suas excelentes piadas faziam as pessoas rirem.
Se não fosse esse humor, suas muitas características desagradáveis teriam tornado impossível que ele tivesse um único discípulo e as mulheres teriam lhe dado as costas.

Desse modo, as piadas eram o caminho mais seguro para atingir o coração das mulheres muito fiéis, cujas vidas são ainda mais difíceis do que as dos homens.
Marx e Jenny foram vistos rindo juntos várias vezes e, mais tarde, seriam as piadas de Marx, mais do que qualquer outra coisa, que ligariam suas filhas a ele.

Marx se orgulhava da nobre descendência escocesa da esposa (ele exagerava esse ponto) e de sua posição de filha de um barão e oficial superior no governo prussiano.
Em convites impressos que ele mandou emitir por ocasião de um baile em Londres, na década de 1860, ela aparece como "née von Westphalen".
Declarava amiúde que se dava melhor com aristocratas genuínos do que com a burguesia avarenta (segundo testemunhas, falava a palavra burguesia com um desprezo peculiar e desagradável)
[Nota: este é o modo de expressão do invejoso despeitado.]

Mas Jenny, tão logo lhe foi revelada a terrível realidade de ter-se casado com um revolucionário sem posição social e sem profissão, teria de bom grado preferido uma vida burguesa, não importando quão banal ela fosse.
Desde o começo de 1848 e no mínimo pelos pr6ximos dez anos, sua vida foi um pesadelo.
A 3 de março de 1848, uma ordem de expulsão belga foi expedida contra Marx e ele foi levado para a prisão; Jenny também passou a noite numa cela, com um grupo de prostitutas; no dia seguinte, a família foi levada sob escolta policial até a fronteira.
Durante a maior parte do ano seguinte, Marx esteve fugindo ou em julgamento.
Por volta de junho de 1849, estava sem recursos.
No mês seguinte, confessou a um amigo: "A última jóia pertencente a minha esposa já achou seu caminho até a casa de penhores".
Manteve seu ânimo graças a um otimismo revolucionário exagerado e permanente, e escreveu para Engels: "Apesar de tudo, uma erupção colossal do vulcão revolucionário nunca foi tão iminente. Aguarde maiores detalhes".
[Nota: Isso tinha a clara intenção de engambelar Engels, que era um ingênuo.]

Mas para ela não havia tal consolo, e além disso estava grávida.
Encontraram segurança na Inglaterra, mas também aviltamento.
Ela agora tinha três filhos, Jenny, Laura e Edgar, e deu à luz um quarto, Guy ou Guido, em novembro de 1849.
Cinco meses mais tarde, foram despejados de seus aposentos em Chelsea por não pagarem o aluguel, sendo jogados na calçada perante (escreveu Jenny) "toda a gentalha de Chelsea".
Suas camas foram vendidas para pagar o açougueiro, o leiteiro, o farmacêutico e o padeiro.
Eles acharam abrigo numa casa de pensão alemã imunda em Leicester Square e lá, naquele inverno, o bebê Guido morreu.
Jenny deixou um relato desesperado desses dias, e desde então seu entusiasmo e sua afeição por Marx nunca mais foram recobrados.

No dia 24 de maio de 1850, o embaixador britânico em Berlim, o Conde de Westmoreland, recebeu de um inteligente espião policial prussiano uma cópia de um relatório que descrevia, bem detalhadamente, as atividades dos revolucionários alemães que se concentravam à volta de Marx.
Nenhum outro texto transmite de forma mais clara o que Jenny foi obrigada a tolerar:
[Marx] leva a vida de um intelectual boêmio. Lavar, arrumar e trocar a roupa de cama são coisas que raramente faz, e na maior parte do tempo está embriagado.
Embora com freqüência fique ocioso por dias a fio, é capaz de trabalhar dia e noite com uma persistência sem descanso quando tem muito trabalho a fazer.
Não tem um horário determinado para ir dormir ou para acordar.
Amiúde, fica acordado a noite inteira e depois se deita completamente vestido no sofá ao meio dia, e dorme até o fim da tarde, nada incomodado com o mundo de gente entrando e saindo daquele cômodo [ao todo, só havia dois] (. ..)
Não há nenhum móvel limpo ou inteiro.
Está tudo quebrado, esfarrapado e rasgado, com um centímetro de pó sobre qualquer coisa e a maior desordem por toda a parte. No meio da [sala de estar] há uma mesa grande e antiga coberta com oleado e sobre ela se encontram manuscritos, livros e jornais, junto com os brinquedos das crianças, trapos e farrapos da cesta de costura de sua esposa, vários copos com as bordas lascadas, facas, garfos, lâmpadas, um tinteiro, copos sem pé, cachimbos de barro holandeses, tabaco, cinzas (. . .) o dono de uma loja de quinquilharias teria dúvidas quanto a jogar fora esse extraordinário conjunto de bugigangas. Quando você entra no aposentos de Marx, a fumaça e o tabaco fazem seus olhos lacrimejarem (. . .)
Está tudo sujo e coberto de poeira, de modo que se sentar torna-se uma ação arriscada.
Num canto, há uma cadeira de três pernas.
Em outra cadeira, as crianças brincam de cozinhar.
Por acaso, essa cadeira tem quatro pernas. É a única que é oferecida às visitas, mas a comida das crianças não foi retirada e, caso você se sente, está se arriscando a perder um par de calças.

[Publicado em Archiv für Geschichte des Socialismus (Berlim, 1922), pp. 56-58; in Payne, pp. 251 e passim.]

Esse relato, que data de 1850, descreve provavelmente o ponto mais baixo na história da família.
Porém, mais desgraças viriam nos próximos anos.
Uma filha chamada Franziska, que nasceu em 1851, morreu no ano seguinte.
Edgar, o filho tão amado, o favorito de Marx, a quem chamava Musch (Mosquinha), pegou gastrenterite por conta do ambiente imundo e morreu em 1855, o que representou um choque terrível para os dois.
Jenny nunca se recuperou. "Todo dia", escreveu Marx, "minha esposa me diz que gostaria de estar no túmulo. . ."

Uma outra menina, Eleanor, tinha nascido três meses antes, mas para Marx isso não era a mesma coisa.
Ele sempre quis filhos homens e agora não tinha nenhum; as garotas eram insignificantes para ele, a não ser como auxiliares de escreventes.
Em 1860, Jenny pegou varíola e perdeu o que restava de sua beleza;
desde então até sua morte em 1881, ela definhou devagar e ficou em segundo plano na vida de Marx, tornando-se uma mulher cansada e desiludida, que se contentava com pequenas caridades: a devolução de
sua prataria, uma casa própria, etc.

Em 1856, graças a Engels, a família pôde se mudar de Soho para uma casa alugada, o n° 9 da Grafton Terrace, em Haverstock Hill; nove anos mais tarde, outra vez graças a Engels, conseguiram uma casa muito melhor, em I Maitland Park Road.
Dessa época em diante, nunca mais deixaram de ter no mínimo dois criados.
Marx passou a ler o jornal The Times toda manhã.
Foi eleito para o conselho da paróquia local.
Nos domingos de sol, levava a família para
passear, com todo o aparato, até Hampstead Heath, ele próprio caminhando à frente, a esposa, as filhas e os amigos atrás.
Porém, o "emburguesamento" de Marx deu lugar a uma nova forma de exploração, dessa vez de suas filhas.
Todas as três eram inteligentes.
Pode-se ter pensado que, para compensar a infância desassossegada e empobrecida que elas suportaram por serem filhas de um revolucionário, ele teria pelo menos obedecido à lógica de seu radicalismo e as encorajado a ter profissões.
Na verdade, ele negou a elas uma educação satisfatória, não permitiu que tivessem nenhuma instrução e proibiu peremptoriamente que ingressassem em profissões.
Como Eleanor, a que mais o amava, disse a Olive Schreiner: "Por muito tempo, os anos de miséria representaram uma sombra entre nós".
Em vez disso, as garotas foram mantidas em casa, aprendendo a tocar piano e a pintar aquarelas, como as filhas dos negociantes.
Enquanto elas cresciam, Marx ainda participava, de vez em quando, de bebedeiras com os amigos revolucionários; porém, segundo Wilhelm Liebknecht, não permitia que eles cantassem canções indecentes em sua casa, pois as meninas podiam ouvir.
Mais tarde, desaprovou os pretendentes das filhas, que faziam parte de seu próprio ambiente revolucionário.
Não podia, ou não conseguiu, evitar que se casassem, porém dificultou as coisas, e o fato de ter sido contra deixou marcas.
Chamava o marido de Laura, Paul Lafargue, que tinha vindo de Cuba e possuía algum sangue negro, de "Negrilho" ou "o Gorila".
Também não gostava de Charles Longuet, que se casou com Jenny.
Na sua opinião, seus dois genros eram idiotas: "Longuet é o último dos proudhonistas e Lafargue é o último dos bakuninistas - danem-se, os dois!"

Eleanor, a mais nova, foi a que mais sofreu com a oposição do pai a que as filhas seguissem profissões e sua hostilidade em relação aos pretendentes.
Ela tinha sido criada para ver o homem - ou seja, seu pai - como sendo o centro do universo.
Talvez não seja tão surpreendente o fato de ela ter-se apaixonado por um homem ainda mais egocêntrico que seu pai.
Edward Aveling, um escritor com pretensões de tornar-se um político de esquerda, era um galanteador e um parasita que tinha se especializado em seduzir atrizes.
Eleanor queria ser atriz e, por isso, foi uma vítima natural.
Por uma pequena e mordaz ironia da história, ele, Eleanor e George Bernard Shaw fizeram parte, em Londres, da primeira leitura privada do brilhante libelo de Ibsen a favor da liberdade da mulher, Casa de bonecas, no qual Eleanor fez o papel de Nora.
Pouco depois da morte de Marx, ela se tornou a senhora Aveling, e daí em diante, foi sua triste serva, como sua mãe Jenny tinha sido de Marx.

Entretanto, Marx deve ter necessitado de sua esposa mais do que quis admitir.
Depois da morte dela, em 1881, definhou rapidamente, parando de trabalhar, procurando se curar em várias estâncias de águas da Europa ou viajando para Argel, Monte Carlo e Suíça atrás de sol e ar puro.
Em dezembro de 1882, alegrava-se com sua crescente influência na Rússia:
"Em nenhum outro lugar meu sucesso me dá mais prazer".

Destrutivo até o final, se vangloriava de que "isso me dá a satisfação de estar corroendo um poder que, depois da Inglaterra, é o verdadeiro sustentáculo da velha sociedade".
Três meses mais tarde, morreu em seu robe, sentado perto da lareira.
Uma de suas filhas, Jenny, tinha morrido poucas semanas antes.
As mortes das duas outras também foram trágicas.
Eleanor, profundamente angustiada por conta do comportamento de seu marido, tomou uma dose excessiva de ópio em 1898, possivelmente escapando de um pacto de suicídio com ele.
Treze anos depois, Laura e Lafargue também fizeram um pacto de suicídio, e ambos o levaram a efeito.

Houve, contudo, uma estranha e obscura sobrevivente dessa trágica família, o fruto do mais grotesco ato de exploração pessoal de Marx.
Em todas as investigações que fez sobre as injustiças dos capitalistas britânicos, ele encontrou por acaso vários exemplos de trabalhadores com salários baixos, porém nunca conseguiu achar nenhum que não recebesse salário.
No entanto, esse trabalhador existia, e vivia na casa de Marx.
Quando ele levava sua família em seus pomposos passeios, bem atrás, carregando a cesta de piquenique e outras bagagens, estava uma atarracada figura feminina.
Tratava-se de Helen Demuth, conhecida pela família como "Lenchen".
Nascida em 1823, filha de camponeses, tinha se juntado à família von Westphalen na idade de oito anos como babá.
Ganhava seu sustento mas não recebia salário.
Em 1845, a baronesa, que se sentia aflita e preocupada com sua filha casada, cedeu Lenchen, então com 22 anos, para Jenny Marx a fim de facilitar a situação da filha.
Ela continuou com a família de Marx até sua morte, em 1890.
Eleanor a chamava de "a mais amorosa das pessoas em relação aos outros, enquanto que austera, a vida inteira, consigo mesma'.
Ela trabalhava de forma brutal e infatigável, não apenas cozinhando e lavando a casa mas também administrando o orçamento familiar, o que Jenny era incapaz de fazer.
Marx nunca lhe pagou um centavo.
Entre 1849 e 1850, durante o período mais tenebroso da história da família, Lenchen tornou-se amante de Marx e ficou grávida.
O pequeno Guido tinha acabado de morrer, mas Jenny, também ela, estava novamente grávida.
Toda a família estava vivendo em dois cômodos e Marx teve de ocultar o estado de Lenchen não apenas de sua esposa mas dos muitos visitantes revolucionários.
Por fim, Jenny descobriu ou teve de ser informada e, mais do que as outras
desgraças por que passava na época, esse fato representou o fim de seu amor por Marx.
Denominou-o de "um incidente sobre o qual não insistirei mais, embora tenha aumentado bastante nossos infortúnios públicos e particulares".
Essa passagem está num esboço autobiográfico que ela escreveu em 1865, do qual 29 das 37 páginas foram conservadas; o restante, onde descreve suas brigas com Marx, foi destruído, provavelmente por Eleanor.
O filho de Lenchen nasceu na casa de Soho, o n° 28 da Dean Street, a 23 de junho de 1851.
O garoto foi registrado como Henry Frederik
Demuth.
Marx se recusou a reconhecer sua responsabilidade, na época ou mais tarde, e negou categoricamente os boatos de que era o pai.
Deve ter aventado a possibilidade de fazer como Rousseau e pôr a criança no orfanato, ou então adotá-la para sempre.
Mas Lenchen tinha uma personalidade mais forte do que a senhora Rousseau.
Insistiu em reconhecer, ela própria, o garoto.
Ele foi oferecido para adoção a uma família de operários chamada Lewis, porém com permissão de visitar a família Marx.
No entanto, foi proibido de usar a porta da frente e obrigado a ver a mãe apenas na cozinha.
Marx estava bastante temeroso de que a paternidade de Freddy fosse descoberta e que isso lhe causasse um prejuízo irrevogável como líder e profeta revolucionário.
Uma leve referência ao incidente ainda se encontra em suas cartas; outras foram suprimidas por mãos variadas.
Por fim, convenceu Engels a reconhecer secretamente a paternidade de Freddy, como uma versão falsa em que a família acreditasse.
Eleanor, por exemplo, tomava-a como verdade.
Mas Engels, embora pronto, como sempre, a se submeter aos pedidos de Marx para o bem de seu trabalho conjunto, não estava disposto a levar o segredo para o túmulo.
Engels morreu, de câncer no esôfago, a 5 de agosto de 1895; incapaz de falar mas desejando que Eleanor (Tussy, como era chamada) não mais acreditasse que seu pai era puro, escreveu numa lousa: "Freddy é filho de Marx. Tussy quer transformar seu pai num ídolo".

[Nota: Isso talvez demonstre que Engels, no final da vida, tenha se conscientizado que Marx era um crápula.]

A secretária e governanta de Engels, Louise Freyberger, numa carta de 2 de setembro de 1898 a August Bebel, disse que o próprio Engels contou a ela a verdade, acrescentando: "A semelhança de Freddy e Marx chega a ser absurda, os dois tendo aquele rosto judeu e o cabelo preto-azulado; só mesmo estando cego pela parcialidade é que se pode ver nele alguma semelhança com o General" (como chamava Engels).
A própria Eleanor aceitou o fato de Freddy ser seu meio-irmão e afeiçoou-se a ele; nove de suas cartas para ele se conservaram.
Ela não lhe fez nenhum benefício, uma vez que seu amante, Aveling, chegou a pedir emprestado todas as economias de Freddy e nunca o reembolsou.
Lenchen foi o único representante da classe trabalhadora que Marx chegou a conhecer de perto, seu único contato real com o proletariado.
Freddy podia ter sido outro, visto que ele foi criado como um jovem proletário e em 1888, com 36 anos, ganhou seu cobiçado diploma como engenheiro mecânico qualificado.
Passou praticamente a vida inteira em King's Cross e Hackney e foi um membro constante do sindicato dos engenheiros.
Mas Marx nunca o conheceu.
Encontraram-se apenas uma vez, possivelmente quando Freddy estava subindo a escada externa que saía da cozinha, sem saber, nessa época, que o filósofo revolucionário era seu pai.
Ele morreu em janeiro de 1929, numa época em que a visão de Marx acerca da ditadura do proletariado tinha tomado uma forma concreta e aterradora e Stalin - o governante que alcançara o poder absoluto pelo qual Marx ansiara - estava apenas começando seu ataque catastrófico contra os camponeses russos.



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Alem das pesquisas do autor este texto também usa informação das seguintes fontes:

- Robert Payne, Marx (Londres, 1968).
- T. B. Bottomore (trad. e org.), Karl Marx: Early Writings [Karl Marx: primeiros escritos] (Londres, 1963).
- Karl Jaspers, "Marx und Freud", Der Monat, xxvi (1950).
- Geoffrey Pilling, Marx' s Capital [O capital, de Marx] (Londres, 1980).
- Louis Althusser, For Marx [Para Marx] (trad. Londres, 1969).
- W. O. Henderson & W. H. ChaIloner (trad.. e org.), Engel’s Condition ofthe working class in England [A situação da classe operária na Inglaterra, de Engels] (Oxford, 1958).
- Robert S. Wistrich: Revolutionary Jews from Marx to Trotsky.
- Henderson & ChaIloner, apêndice v, no livro do dr. Loudon, Report on the operation of the poor laws [Relatório sobre a operação das leis dos pobres], 1833
- Nationalokonomie der Gegenwart und Zukunft, i (Frankfurt, 1848).
- Leslie R. Page, Karl Marx and the
critical examination of his works [Karl Marx e o exame crítico de suas obras] (Londres,
1987).
- David F. Felix, Marx as politician [Marx como político] (Londres, 1983).
- Felix, e Chushichi Tsuzuki: The Life of Eleanor Marx, 1855-98: A Socialist Tragedy [A vida de Eleanor Marx, uma tragédia socialista] (Londres, 1967).
- Stephan Lukes, Marxism and Morality [Marxismo e moralidade] (Oxford, 1985).
- David McLeIlan, Karl Marx: His life and Thought [Karl Marx: sua vida e seu pensamento] (Londres, 1973).
- David McLeIlan, Karl Marx: Interviews and Recollections [Karl Marx: entrevistas e recordações] (Londres, 1981).
- Fritz J. Raddatz, Karl Marx: A Political Biography (trad., Londres, 1979).
- H. F. Peters, Red Jenny: A Life With Karl Marx [Jenny, a comunista: sua vida com Karl Marx] (Londres, 1986).
- Yvonne Kapp, "Karl Marx's children:
Family Life 1844-55" ["Os filhos de Karl Marx: a vida em família, 1844-55"], in Karl Marx: 100 years on [Karl Marx: 100 anos depois] (Londres, 1983).
- Maximilien Rubel em Marx: Life and Works [Marx: vida e obras] (trad., Londres, 1980); - W. Blumenberg, Karl Marx: An Illustrated Biography [Karl Marx: uma biografia ilustrada] (1962, trad. inglesa Londres,
1972).



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"Marx é inquestionável !?"

http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=47930640



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Início da contagem de visita em 01-10-2010.





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3 comentários:

  1. exelente post Arnaldo, estou estarrecido com tamanhas informações que estão cada vez mais sendo sufocadas, continue com esse seu trabalho

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  2. Obrigado aos dois !
    Iremos continuar a mostrar a realidade do marxismo, um refúgio para a ralé da humanidade.

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